Saltar para o conteúdo
← Grupo Aprecisa · Liga quem sabe a quem precisa
Gaspar do Amaral

Pessoa e sociedade

A Espada que conquistei e a Liberdade que encontrei

Gaspar do Amaral ·

Capa do artigo «A Espada que conquistei e a Liberdade que encontrei»

«Senhor Coronel» — A Espada que conquistei e a Liberdade que encontrei

Há fórmulas de tratamento que não passam de convenção. E há outras que são condensações de séculos — de soberania, de carácter e de uma certa ideia de pertença. O «Meu» com que, no Exército Português, um militar se dirige ao seu superior — Meu Coronel, Meu Capitão, Meu General — pertence, sem hesitação, à segunda categoria. Não é uma cortesia de circunstância: é a sobrevivência fonética de um mandato de soberania.

I. A génese: de Guimarães ao despacho direto

A historiografia de caserna costuma explicar o «Meu» pela camaradagem da trincheira — o oficial pertence à sua hoste, e os seus homens reclamam-no como seu. É verdadeiro, mas é a leitura curta. A leitura longa devolve-nos a Guimarães, ao berço do Condado Portucalense e à relação umbilical de D. Afonso Henriques com a Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira.

Para existir como Reino, o jovem soberano precisava de validação junto da Santa Sé — validação que só viria a consolidar-se formalmente, em 1179, com a bula Manifestis Probatum. Nessa arquitetura de poder, garantir um canal de despacho direto com Roma, sem a mediação de esferas eclesiásticas concorrentes, era um ato de blindagem da própria soberania. O dignatário com direito de proximidade ao topo do poder era o Monsenhor — do francês Monseigneur, literalmente Meu Senhor: aquele que sobe ao despacho sem intermediário.

Daqui decorre a tese que sustenta este artigo: o «Meu» do Exército é a contração desse estatuto fidalgo — Meu Senhor [Posto]. Não significa posse de cima para baixo; significa vassalagem direta ao soberano que representa a Nação, sem intermediários. O Exército foi a força que nasceu com Afonso Henriques — que só seria reconhecido Meu Rei pela Santa Sé, a autoridade suprema a que o Monsenhor levava o despacho, já velho e cansado, em 1179. Sem coroa e sem título, fundou primeiro o território, contra todas as probabilidades da época. Os seus oficiais herdaram, por isso, um direito de nobreza partilhada pela espada — e o tratamento por «Meu» é o eco protocolar dessa fidalguia desses tempos.

II. O contraste: o «Senhor» da Armada e da Força Aérea

A escolha do termo distingue genealogias. A Marinha — que detém a primazia protocolar nas cerimónias militares, mas que não foi a primeira força militar a existir em Portugal — cultiva o Senhor Comandante, Senhor Almirante. A distinção é essencial e não meramente erudita: a precedência cerimonial e a antiguidade hierárquica não se confundem com o tempo da existência. A hoste terrestre que se afirma com Afonso Henriques na Batalha de São Mamede, a 24 de junho de 1128, é anterior à organização formal da Armada; o que a Marinha detém é a primazia no protocolo, não a primogenitura na ordem do tempo. A bordo, em espaço confinado, a hierarquia tem de ser absoluta e a autoridade do comando, inquestionável. O «Senhor» institui a distância protocolar do navio enquanto território nacional flutuante e embaixada do Estado — formalismo cortesão de quem sempre representou a Nação perante cortes estrangeiras.

A Força Aérea, criada em 1952 da fusão da Aeronáutica Militar com a Aviação Naval, herdou em larga medida a matriz formal e técnica da Armada, afastando-se da cultura de infantaria. Daí o «Senhor».

Onde o «Meu» evoca a união pela espada e a proximidade ao soberano, o «Senhor» evoca o respeito pelo cargo e a distância do comando que o navio e a missão impõem.

III. Alexandre Júlio e Gaspar do Amaral

É neste enquadramento que ganha densidade o modo como Alexandre Júlio se dirige a mim por Meu Coronel. Fixe-se o pormenor protocolar, que não é acessório: o posto a que cheguei foi o de Tenente-Coronel — promoção de 2015 —, e a tradição militar portuguesa suprime o prefixo no tratamento falado, interpelando o Tenente-Coronel, sem mais, por Coronel. E quando, por hábito ou por formação, a boca lhe diz Senhor Coronel, o que verdadeiramente diz é Meu Coronel: não cumpre apenas um regulamento — reivindica a linhagem afonsina do tratamento, o reconhecimento de uma pertença mútua que antecede a hierarquia e a transcende.

O «Meu» é, aqui, uma profissão de fé numa escola de carácter. Não se trata de subordinação administrativa; trata-se de aceitar uma genealogia de verticalidade — a mesma que nasceu quando a vontade humana e a força das armas ditaram, em Guimarães, o nascimento de Portugal, na Batalha de São Mamede.

E, contudo, é exatamente aqui que devo a quem me lê a maior das honestidades — a que deixo para o fim.

IV. Licença ilimitada: a minha liberdade segundo Agostinho da Silva

E é aqui que a minha própria situação se torna pertinente. A 25 de outubro de 2018 passei à licença ilimitada — por opção que ainda hoje surpreende muitos dos que comigo privaram. Não por desinteresse, mas por uma escolha pessoal, talvez por vezes, alinhada com a filosofia que Agostinho da Silva que teorizou com lucidez rara aquilo que pratico diariamente. Chamo a esse momento o meu 25 de Abril — o dia da minha liberdade que nada tem a ver com 1974: a minha libertação pessoal, aquele momento que precisei de coragem e que troquei a carreira pela soberania sobre o meu próprio tempo e de mim próprio.

Esperei cinquenta anos e aconteceu.

A liberdade que o pensador defendeu não é a ausência de dever; é a recusa de viver subordinado à acumulação. Agostinho da Silva celebrou o ócio criador, a gratuitidade, a primazia do ser sobre o ter — a convicção de que o homem verdadeiramente livre é aquele que não se deixa capturar pela lógica utilitária do amontoar. Viver livre, nessa aceção, é dispor da própria vida como ato de criação e não como contabilidade de posses ou de galões.

Foi também com esse critério que tomei a decisão de não continuar a acumular tempo de serviço militar. A contabilidade do tempo — a soma de anos que constitui a carreira formal — não é, para mim, a medida do que importa. Optei por não a ter.

V. O que não se acumula, vive-se

Mas há uma distinção decisiva, e é nela que assenta tudo o resto: não ter o tempo de serviço não é não ter a escola. Tive-a, tenho-a e desenvolvo-a diariamente — a escola do «Meu Coronel», a que se pratica no Exército Português desde Afonso Henriques. É uma escola de pertença e de responsabilidade: investido pela comissão da Coroa, o Coronel responde pela Autoridade que dela recebe e torna-se o seu representante no campo de combate — perante o inimigo, mas também perante os seus próprios homens e hoje também mulheres.

Essa escola não se mede em tempo de serviço; mede-se em verticalidade. É a disciplina interior, a recusa da superficialidade, o sentido de pertença a algo maior do que o próprio e que é transcendente. É aquilo a que chamo A Fundação da Verticalidade — o oposto exato do Abismo do Rigor em que se despenha quem confunde carreira com carácter.

A liberdade de Agostinho da Silva e a fidalguia do «Meu Coronel» convergem. Ambas afirmam que o valor de um homem não está no que acumula — nem em anos, nem em bens — mas no que é capaz de ser com retidão. Dispensei a contabilidade do tempo precisamente para poder viver, sem intermediários e sem reservas, aquilo que o «Meu Coronel» significa: a vassalagem livre ao que é justo, a proximidade direta ao essencial, a nobreza que se exerce de pé.

É essa a herança que escolhi servir. Não a tenho registada em anos de serviço. Tenho-a inscrita na maneira de estar.

VI. Apenas Gaspar do Amaral

Resta a honestidade que anunciei. Agradeço a deferência de quem me trata por Coronel ou por Senhor Coronel — mas não sou isso. Não sou Coronel: fui Tenente-Coronel, ou Coronel no lugar Tenente, e já o não sou. Estou Engenheiro — mas apenas porque o exerço; no dia em que deixar de o exercer, deixarei igualmente de ser assim tratado, não preciso disso para Ser. Eis a regra que aprendi a respeitar: a função só existe enquanto há ato que a sustente. O posto, a patente, a profissão são modos de fazer — contingentes, perecíveis, dependentes do exercício —, nunca substância. O que exercí não é o que sou; e também não sou o que fui. Sob todas essas funções, e mesmo quando todas se apagarem, permanece uma só coisa que de exercício nenhum depende: continuo a Ser Gaspar do Amaral.

E a substância do elogio raramente me move, porque o elogio é, as mais das vezes, um impostor que se senta à mesa do carácter sem ter sido convidado.

Por isso prescindo do título. Não por desdém da farda — devo-lhe a escola inteira —, mas porque a escola do «Meu Coronel», levada às últimas consequências, ensina precisamente isto: que a verticalidade não precisa de galões para se manter de pé. O homem livre de Agostinho da Silva não carrega honrarias; carrega-se a si mesmo.

Senti-o ainda Soldado-Instruendo, quando sonhava chegar a General; mas, ao compreender que General já o era por dentro, percebi que o meu sentir ia além de qualquer posto — e foi já Tenente-Coronel que o pus em verso:

Largo medalhas, não quero honrarias, prefiro migalhas que se chamam alegrias.

É essa a economia da minha liberdade. Troquei as medalhas pelas migalhas — e descobri que as migalhas, quando se chamam alegrias, são o pão inteiro. Tratem-me como entenderem; continuarei a assinar, sem posto e sem prefixo, apenas pelo que sou e sempre fui, tal como serei.

VII. O Nome que não se exerce

E, no entanto, mesmo Gaspar do Amaral me foi dado pela minha Mãe — à pia batismal, por mãos humanas e exatamente igual ao do meu Pai e com esse amor aprendi a amá-lo. Despi os nomes que se exercem; resta o que de exercício nenhum depende e que nem sequer escolhi: o Nome com que me chama Quem me fez. Gostaria de o saber, porque será esse, e só esse, o meu verdadeiro Nome.

A tradição que melhor responde a esta intuição guarda-o em segredo. O Apocalipse fala de uma pedra branca onde está inscrito um nome novo, que ninguém conhece senão aquele que o recebe — não por estar escondido, mas por ser intransmissível: coincide tão perfeitamente com o ser de cada um que não cabe em boca alheia. E o profeta ouve a voz que diz, a cada homem: chamei-te pelo teu nome, és meu. Aí o nome não é etiqueta nem patente — é ato de amor e de eleição.

Repare-se na coerência com tudo o que precede. Os nomes que se exercem — o posto, a profissão — dependem do ato e perecem com ele. O Nome com que Deus chama é o único que não se exerce: recebe-se. É puro Ser, sem fazer. Não se conquista como uma medalha — e quem largou as medalhas sabe-o de ciência certa —; acolhe-se.

E porque somos feitos à Sua imagem e semelhança — e todos o somos —, esse Nome é, ao mesmo tempo, a coisa mais singular e a mais partilhada que há. Singular, porque nomeia o que em cada um, e só nele, reflete o Criador. Partilhado, porque a fonte é uma só e a Voz que o profere é a mesma para todos: muitos nomes irredutivelmente próprios, uma só boca que os diz.

É aqui que o arco se fecha. Partimos da distinção e da hierarquia — o «Meu» e o «Senhor», a genealogia da soberania, a fidalguia partilhada pela lei conquistada pela espada. E chegamos à única fidalguia que não exclui ninguém: a que se partilha na imagem. Os galões distinguem; a imagem iguala. O que torna nobre um homem não é o posto que largou — é o mesmo que torna nobre qualquer homem: ter sido chamado pelo nome, e ser amado nesse chamamento.

Quanto a saber qual é esse Nome, creio que é da sua natureza não se deixar antecipar. Não se decifra à distância; ouve-se no encontro. E talvez já o oiça, sem ainda o saber dizer, nas tais migalhas a que chamei alegrias — porque é no que não se compra, e não no que se exerce, que a imagem fala mais baixo e mais verdadeiro.

O resto é silêncio. E o silêncio, aqui, não é ausência de resposta: é o lugar onde a resposta se diz.


Gaspar do Amaral

A Fundação da Verticalidade

A discussão está no LinkedIn

Os comentários a este texto fazem-se no LinkedIn, onde foi publicado a 15 de junho de 2026. Concorde, discorde ou acrescente dados: todas as objeções fundamentadas recebem resposta.

Gaspar do Amaral · 15 de junho de 2026 · Texto publicado primeiro no LinkedIn; a versão integral fica neste site, que passa a ser a de referência · Imagens © Aprecisa.com