Engenharia · Água · Opinião
Quando a chuva falta à rede
Água e hidroeletricidade em 214 países, com a mesma régua
Gaspar do Amaral ·
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Junho de 2022. Num centro de despacho, o ecrã das albufeiras mostra o que o calendário já anunciava: o índice de produtibilidade hidroelétrica do mês fica em 0,24 — um quarto do que o parque produziria num junho normal, o valor mais baixo para esse mês desde 1971. No primeiro semestre, o gás natural cobre 31 % do consumo e a importação 21 %, ambos máximos semestrais. Do outro lado da fronteira, a produção hídrica espanhola fechará o ano com menos 39,7 %; na União Europeia, com menos 19 %. Em França, no mesmo verão, as albufeiras estão historicamente baixas e a temperatura dos rios obriga a reduzir centrais nucleares.
Ninguém, nessa sala, precisa que lhe expliquem o que é uma seca. Precisa de saber outra coisa: quanto da eletricidade do país depende de chover, quanto falta no pior ano, e o que a rede tem para o cobrir. É uma pergunta simples, e nenhum dos indicadores que habitualmente se citam lhe responde.
A água é o único combustível que não se encomenda: chega ou não chega. E entra no sistema elétrico de duas maneiras que raramente se medem juntas. Pela turbina, como energia e como armazenamento. E pela torre de arrefecimento, pela dessalinizadora e pela estação elevatória, como recurso que a eletricidade consome e que consome eletricidade.
Este artigo aplica a esse duplo papel a mesma régua que usei para os sistemas elétricos: um painel de 214 países e territórios, construído com fontes abertas, organizado por escalas temporais e sem nota agregada. Primeiro, o sistema hídrico mundial em números. Depois, os relógios da água — as horas, o ano, as décadas, a disponibilidade, o serviço e o nexo. Por fim, Portugal com a mesma régua.
Em linguagem simples: Uma barragem é ao mesmo tempo uma central, uma bateria e um depósito de água. Num ano de chuva, as três funções convivem. Num ano seco, competem — e é nesse ano que se vê se o sistema foi bem medido.
I. Mais energia do que nunca, menos peso do que nunca
No fim de 2025, o mundo tinha 1 469 GW de potência hidroelétrica, dos quais 201 GW de bombagem, segundo o World Hydropower Outlook 2026 da International Hydropower Association (IHA). Em 2025 entraram em serviço 28 GW, dos quais 11,7 GW de bombagem — um recorde. A produção também bateu recordes: 4 495 TWh para a IHA, 4 437 TWh para a Ember. Mas a quota da hidroeletricidade na produção elétrica mundial caiu para 14 %, o valor mais baixo de que há registo; em 2020 era de 17 %.
Não há contradição. A procura e a produção eólica e solar crescem mais depressa do que a hídrica, e a potência hídrica nova é cada vez mais bombagem, que desloca energia em vez de a produzir. Da carteira mundial de projetos, 1 127 GW, mais de metade é bombagem. O valor sistémico da hídrica está a deslocar-se da energia para o armazenamento e para a potência.

A Tabela 1 reúne os valores de referência. Dois deles separam ordens de grandeza que o debate público confunde. As albufeiras do mundo guardam cerca de 1 500 TWh por ciclo completo de enchimento: é armazenamento sazonal e plurianual, à escala do TWh. A bombagem e as baterias são armazenamento diário e semanal, à escala do GWh. Não se substituem, e não se medem com a mesma coluna.
A diferença de 1,3 % entre os dois valores de produção também tem lição. É uma diferença de perímetro e de método entre duas fontes sérias. Numa tabela comparativa, basta misturá-las para criar entre dois países uma diferença que não existe em nenhum deles. Por isso o painel usa a IHA para a potência e a bombagem, e a Ember, através do Our World in Data, para a produção — nunca as duas na mesma coluna.
II. Os relógios da água
Tal como o sistema elétrico, a água obedece a vários relógios. Nas horas, a pergunta é se há armazenamento para deslocar energia de umas horas para as outras. Na estação e no ano, é quanto produz o parque num ano seco. Nas décadas, é se o parque e as albufeiras estão a ser renovados e o que o clima fará ao escoamento. A estes três relógios juntam-se quatro dimensões próprias da água: a disponibilidade, o serviço à população, a fronteira e o nexo com a energia.

A Tabela 3 cruza cada escala com a métrica de referência e com o que foi possível medir para 214 países e territórios. Para montar o painel juntei sete fontes primárias: o anexo por país do World Hydropower Outlook 2026 da IHA; a série de produção do Our World in Data, que agrega a Ember e o Energy Institute; o inventário de centrais do Global Energy Monitor; a base de barragens e albufeiras Global Dam Watch; o FAO AQUASTAT, que é a fonte dos indicadores 6.4.1 e 6.4.2 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS); o ficheiro mundial do Programa Conjunto de Monitorização (JMP) da OMS e da UNICEF; e, para os fatores do nexo, a revisão de Macknick e colegas. O resultado é uma folha de cálculo com uma linha por país, 30 indicadores numéricos, o ano e a fonte de cada coluna, e a fórmula de cada cálculo.
A última coluna mostra a mesma assimetria do painel elétrico. O que é anual está quase completo. O que se decide nas horas — a energia armazenável em bombagem, em GWh — não tem fonte mundial aberta, e o painel recorre a um proxy declarado, a potência de bombagem a dividir pela carga elétrica média. Ficam também de fora o stress por sub-bacia e por mês, cujos dados por país não foram obtidos, e a dependência de caudais vindos de montante.
Em linguagem simples: Sabemos quanta água cada país capta por ano e quanta eletricidade as suas barragens produzem. Sabemos muito menos sobre o que acontece no mês seco, na bacia apertada e na hora de ponta — que é onde as crises acontecem.
III. Estação e ano: o choque de seca
A variabilidade hidrológica é a fraqueza estrutural da face elétrica da água, e os últimos anos deram-lhe números. A Tabela 2 reúne nove acontecimentos documentados entre 2021 e 2024.

A Tabela 2 mostra um padrão que se repete. Quando a água falta, os sistemas respondem sempre de uma de três maneiras: com reserva térmica, como a União Europeia, que queimou mais 28 TWh de carvão em 2022; com importação, como Portugal e o Brasil; ou com racionamento, como Sichuan, a Zâmbia e o Equador. Os sistemas que acabaram em racionamento têm em comum uma quota hídrica elevada e pouca reserva térmica ou interligação.
Nenhuma fonte publica, por país, quanto da produção hídrica falta num ano seco. Calculei-o. O cálculo direto — o coeficiente de variação da produção anual — tem um defeito: um parque que cresce parece variável sem que chova menos. O Nepal e o Lesoto, que puseram centrais novas em serviço na última década, apareciam entre os sistemas mais «instáveis» do mundo por essa razão. A correção é retirar a tendência. Para cada país, ajustei uma reta à produção hídrica de 2015 a 2024 e dividi a produção de cada ano pelo valor da reta:

A razão rt vale 1 num ano normal para o parque existente; abaixo de 1, o ano foi seco. O desvio-padrão das razões mede a variabilidade hidrológica, e a menor razão da década mede o ano mais seco. Multiplicando a falta desse ano pela quota hídrica de três anos obtém-se a fração da eletricidade do país que desaparece no pior ano da década — e que tem de ser coberta por térmica, importação ou corte:

Não é um índice: é uma grandeza física derivada, em percentagem da produção elétrica, com as duas parcelas visíveis.

A Figura 1 mostra 137 países, com a quota hídrica no eixo horizontal e a produção do ano mais seco, face à tendência, no eixo vertical. As curvas tracejadas são as linhas de igual choque: 5, 10 e 20 % da produção elétrica. A mediana mundial da variabilidade é de 0,115, e a do choque de 4,6 %. A Albânia, com 97 % de hídrica e um ano seco a 0,71, perde 28 % da eletricidade no pior ano da década; o Butão, o Lesoto e o Nepal, quase só hídricos, perdem cerca de 20 %. A Noruega, com 89 % de hídrica, fica nos 8 %, porque o seu pior ano esteve a 0,91 da tendência. A figura mostra ainda uma regularidade: os países com mais hídrica tendem a ter produção menos variável (correlação de Spearman de −0,34, em 137 países). A explicação provável, que não testei, é que os grandes sistemas hídricos têm várias bacias e muito armazenamento, e uma seca raramente as atinge todas ao mesmo tempo. Portugal, a laranja, combina uma quota moderada (24 %) com o ano seco mais profundo entre os sistemas europeus com hídrica relevante (0,57) e fica nos 10,3 %.
No mundo, 45 países produzem mais de metade da eletricidade a partir da água, e 9 produzem mais de 90 %. Para eles, a chuva é uma variável de segurança de abastecimento, e a resposta à seca decide-se na fronteira elétrica e no parque térmico — duas variáveis que estão na ficha elétrica e não na hídrica. As duas fichas têm de ser lidas juntas.
Em linguagem simples: O choque de seca responde à pergunta: se este ano chover como no pior ano da última década, que parte da eletricidade do país tem de vir de outro lado? Na Albânia, mais de um quarto. Em Portugal, um décimo. Na Noruega, menos de um décimo, apesar de quase tudo ser hídrico.
IV. Horas: de central a bateria
Na escala das horas, a hídrica tem outra função: a de bateria. Uma central reversível bombeia água para a albufeira de cima quando a eletricidade sobra e turbina-a quando falta. A métrica física certa é a energia armazenável, em GWh, e a duração à potência máxima; mas essa grandeza não é publicada de forma comparável para quase nenhum país. O painel usa por isso a potência de bombagem a dividir pela carga elétrica média — a procura anual a dividir por 8 760 horas. É potência, não energia, e o rótulo di-lo.

A Figura 2 ordena os vinte sistemas com maior razão entre a potência de bombagem e a carga média, entre os 44 que têm bombagem. O Luxemburgo e a Lituânia, a cinzento, estão no topo por razões que não são suas: as centrais de Vianden e de Kruonis servem sobretudo os sistemas vizinhos. Excluídos esses dois casos, Portugal, a laranja, tem a maior razão do mundo: 56,2 % da carga média, à frente da Suíça (55,9 %) e da Áustria (48,8 %). Os três são sistemas pequenos, montanhosos e fortemente interligados. A China, com a maior potência de bombagem absoluta, fica nos 6 %, porque o denominador é o maior sistema elétrico do mundo.
O significado é que em Portugal a hídrica já não é sobretudo uma fonte de energia: 44 % da potência hídrica nacional é reversível, contra 13,7 % no mundo. O complexo do Tâmega acrescentou 1 158 MW e 40 GWh de armazenamento — cerca de 35 horas à potência total. É a escala das horas, e a hídrica portuguesa vive cada vez mais nela.
V. Décadas e disponibilidade: as barragens guardam água, não a criam
A Global Dam Watch inventaria 35 295 albufeiras com 7 405 km³. Dividindo o volume das albufeiras de cada país pela população, obtém-se o armazenamento por habitante: de menos de um metro cúbico nos Emirados Árabes Unidos a mais de 35 000 no Suriname, com uma mediana mundial de 361. Portugal guarda 1 380 m³ por habitante, em 145 barragens, a maior parte construídas para a produção elétrica.
A tentação é ler o armazenamento como segurança hídrica. A Figura 3 mostra porque não se deve.

A Figura 3 cruza o armazenamento por habitante com o stress hídrico do ODS 6.4.2 — a razão entre a água doce captada e os recursos renováveis, depois de deduzidos os caudais ecológicos —, para 152 países, ambos em escala logarítmica. Não há relação: a correlação de Spearman é de −0,12, estatisticamente nula. O Egito, com a barragem de Assuão, guarda 1 410 m³ por habitante e capta 113 % dos recursos renováveis; a Noruega guarda mais de 6 000 m³ e capta 2 %. As barragens deslocam a água no tempo — da estação húmida para a seca, do ano húmido para o seco —, mas não aumentam o que chega à bacia. Onde se capta mais do que o rio traz, nenhuma albufeira resolve.
No mundo, segundo a FAO, o stress hídrico médio é de 17,6 %, mas no Norte de África e na Ásia Ocidental chega a 77,7 %. No painel, 16 países estão em stress crítico, acima de 100 %, com 411 milhões de habitantes; 23 estão acima de 75 %; e cerca de 2,5 mil milhões de pessoas vivem em países cuja média nacional passa os 50 %. A agricultura é responsável por 72 % das captações mundiais. E todos estes números são médias nacionais e anuais: o stress que interrompe o abastecimento é o de uma sub-bacia num mês de verão, e esse não se vê na média.
Em linguagem simples: Uma barragem é um mealheiro, não um salário. Permite gastar no verão o que se juntou no inverno, mas não aumenta o que entra. Um país que gasta mais água do que a chuva lhe dá não se salva com mais mealheiros.
VI. Serviço: o que chega à torneira
A face do serviço é a mais bem medida do mundo, graças ao JMP. Em 2024, 74 % da população mundial tinha água gerida com segurança — no domicílio, disponível quando necessária e sem contaminação — e 58 % tinha saneamento gerido com segurança. Ainda assim, 2,1 mil milhões de pessoas não têm a primeira e 3,4 mil milhões não têm o segundo. No painel, 42 dos 146 países com dado ficam abaixo dos 50 % de água gerida com segurança.
Portugal tem 95,2 % de água gerida com segurança e 93,9 % de saneamento gerido com segurança, segundo o JMP. O regulador nacional, a ERSAR, publica 99 % de «água segura». Os dois valores não se contradizem: medem coisas diferentes. A ERSAR mede a qualidade da água fornecida pelos sistemas públicos; o JMP mede a população, incluindo a que não está ligada à rede pública. É a regra mais antiga da mesma régua: um número não se compara com outro sem se saber o que conta cada um.
VII. O nexo: captação não é consumo
A água entra na eletricidade e a eletricidade entra na água. A Tabela 4 mostra os dois sentidos com os valores de referência.

A Tabela 4 tem duas lições de método. A primeira está nas duas colunas da parte de cima: captar não é consumir. Uma central nuclear em circuito aberto capta cerca de 168 m³ por MWh e devolve quase tudo ao rio, mais quente; com torre húmida, capta 4 m³, mas evapora 2,5. Mudar o arrefecimento troca captação por consumo. Somar as duas grandezas, ou comparar a captação de um país com o consumo de outro, é o erro mais frequente nas comparações do nexo. A fotovoltaica e a eólica estão três a quatro ordens de grandeza abaixo de qualquer térmica.
A segunda lição está nas duas linhas da hídrica. Imputando toda a evaporação da albufeira à eletricidade, a hídrica «consome» cerca de 245 m³ por MWh, cem vezes mais do que uma térmica com torre. Deduzindo a evaporação que já existia antes da barragem e repartindo a restante pelos usos da albufeira — rega, abastecimento, regularização —, o valor aproxima-se de zero. O método decide o resultado em três ordens de grandeza. Uma tabela que não declare o método mede a convenção, não o sistema.
No sentido inverso, a dessalinização por osmose inversa gasta cerca de 3,3 kWh por metro cúbico, e o setor da água, no conjunto, cerca de 4 % da eletricidade mundial. A ordem de grandeza é instrutiva para Portugal. A dessalinizadora do Algarve, adjudicada em 2024 para cerca de 16 hm³ por ano, precisará de cerca de 53 GWh por ano — 0,1 % do consumo elétrico nacional, mas uma carga relevante para a rede regional. E os cerca de 190 hm³ de água não faturada que a ERSAR regista por ano valem doze vezes a capacidade da dessalinizadora. O metro cúbico mais barato é o que não se perde.
Em linguagem simples: Uma central que tira água do rio e a devolve morna não é o mesmo que uma central que a evapora. A primeira «usa» muita água e «gasta» pouca; a segunda usa pouca e gasta quase toda. Quem compara as duas com o mesmo número está a comparar maçãs com peras.
VIII. Doze sistemas, a mesma régua

A Tabela 5 põe lado a lado doze sistemas, escolhidos pela diversidade de dimensão, de clima e de mix. Lê-se por colunas, não por linhas: nenhuma linha tem nota final. A Noruega é quase toda hídrica, tem o maior armazenamento por habitante da amostra e a menor variabilidade, e não tem stress hídrico. O Equador tem 72 % de hídrica, pouca reserva térmica e albufeiras pequenas para o seu sistema — e foi um dos que acabou em racionamento em 2024. O Egito tem stress de 113 % e quase não depende da hídrica para a eletricidade. A Índia tem 90 % das captações na agricultura e 80 % de eletricidade térmica, exposta à água de arrefecimento. A Suíça e Portugal têm a mesma razão entre bombagem e carga média, com quotas hídricas muito diferentes. A França combina o parque hídrico mais velho da amostra europeia com a quota térmica mais alta do grupo, quase toda nuclear e arrefecida pelos rios.
IX. Portugal com a mesma régua

A Tabela 6 coloca Portugal na distribuição mundial e europeia, com as posições contadas do valor mais alto para o mais baixo. Três linhas destacam-se.
A primeira é a variabilidade. Entre os 82 países em que a hídrica pesa pelo menos 20 % da produção elétrica, Portugal tem a hidrologia mais variável do mundo, e é o primeiro da Europa entre os 35 com dado. Os cinco países que o antecedem na lista mundial completa têm hídricas pequenas, que não passam de 13 % da produção. A segunda é a bombagem: a terceira maior razão entre potência de bombagem e carga média do mundo, e a maior entre os sistemas cuja bombagem serve o próprio país. A terceira é a idade: com 31,5 anos ponderados pela potência, Portugal tem o parque hídrico mais novo da Europa — efeito do programa de barragens das duas últimas décadas e da repotenciação com bombagem.
Do lado da água, o quadro é o de um país sem stress na média nacional — 12,3 % no ODS 6.4.2, em 2023 — com stress real nas bacias do sul e uma dependência a montante que a média não mostra. Segundo a Agência Portuguesa do Ambiente, cerca de 70 % da água que Portugal consome chega de Espanha pelos rios internacionais. A Convenção de Albufeira e a cimeira luso-espanhola de outubro de 2024, que acordou o primeiro regime de caudais mensais no Guadiana e princípios de caudal diário no Tejo, são, nesta leitura, infraestrutura hídrica — tão importante como as barragens.
A leitura conjunta é a de um sistema que usa a hídrica cada vez mais como bateria e cada vez menos como fonte de energia, com a hidrologia mais variável da Europa e uma fronteira que é ao mesmo tempo elétrica e hídrica. Em 2022, as duas fronteiras foram chamadas no mesmo semestre.

A Figura 4 mostra a razão entre a produção hídrica de cada ano e a tendência de 2015 a 2024, para Portugal, Espanha e Noruega. A linha da Noruega mal se afasta de 1. A de Espanha oscila entre 0,64 e 1,28. A de Portugal vai de 1,55 em 2016 a 0,57 em 2017, volta a 0,57 em 2022 e sobe a 1,26 em 2024: em dez anos, dois anos secos a 57 % do normal e um ano húmido a 155 %. Na quota hídrica anual, isto significou passar de 27 % da produção em 2016 para 10 % em 2017. Nenhum outro sistema europeu com hídrica relevante oscila tanto.
X. As regras da mesma régua para a água
As regras do painel elétrico continuam válidas: uma fonte por coluna, ano declarado, denominador explícito, nenhum valor imputado.
A água acrescenta as suas, porque as incoerências que encontrei nas fontes são próprias dela: o ano hidrológico, a evaporação, o perímetro da bombagem, a captação e o consumo. A Tabela 7 reúne as dez que segui.

A Tabela 7 enuncia cada regra ao lado do erro que evita. Duas merecem destaque. A terceira, a de calcular a variabilidade face à tendência, mudou a classificação de vários países: sem ela, o crescimento do parque passava por instabilidade hidrológica. E a décima repete a conclusão do painel elétrico: o painel não tem nota agregada. Uma soma ponderada de choque de seca, água segura e stress hídrico teria a aparência de rigor e a substância de uma opinião.
Conclusão
Volto ao centro de despacho de junho de 2022, porque a pergunta que lá se fazia tem agora resposta. Quanto da eletricidade de Portugal depende de chover? Cerca de um quarto, em média de três anos. Quanto falta no pior ano da década? Cerca de 10 % da produção, num sistema cuja hidrologia é a mais variável da Europa. O que cobre a falta? A bombagem desloca energia entre horas, mas não cria água; a falta de um ano seco cobre-se com gás e com importação — com a fronteira elétrica, numa estação em que a fronteira hídrica também aperta.
O mundo mostra o mesmo em grande. A hidroeletricidade produz mais do que nunca e pesa menos do que nunca; o seu valor desloca-se da energia para o armazenamento. As barragens guardam a água, mas não a criam. E a mesma água que move as turbinas arrefece as centrais térmicas, abastece as cidades e rega os campos — e, num ano seco, todos a pedem ao mesmo tempo.
Os dados abertos chegam para medir o ano e o serviço. Não chegam para medir a hora, a sub-bacia e o mês — e é aí que as crises acontecem. O painel que acompanha este artigo mede o que se consegue, com a mesma régua, e diz com clareza o que falta.
Na próxima vez que um país anunciar a sua quota renovável, a pergunta do engenheiro deve vir antes dos aplausos: em que ano hidrológico?
Menos médias. Mais anos secos.
Em linguagem simples: Um sistema elétrico com muita água é como uma casa com um poço: ótimo nos anos de chuva, posto à prova nos de seca. A pergunta certa não é quanta água o poço dá em média, mas quanta dá no pior verão — e o que se faz nesse verão.
Gaspar do Amaral
Texto, tabelas, figuras e painel de dados do autor, com recurso a IA na pesquisa e na verificação. © Aprecisa.com
Nota metodológica
Todos os números do painel foram calculados pelo autor a partir de fontes primárias consultadas a 11 de outubro de 2026. A folha de cálculo que acompanha o artigo contém, para cada coluna, a fonte, o ano, a definição, a fórmula e o nível de cobertura.
- Universo. 214 países e territórios com procura e produção elétrica no conjunto de dados de energia do Our World in Data (versão congelada no GitHub, dados Ember e Energy Institute). Correspondência entre fontes pelo código ISO 3166-1 alfa-3.
- Potência, bombagem e produção de 2025. Anexo por país do World Hydropower Outlook 2026 da IHA (tabela «Installed capacity and generation 2025»), extraído do PDF. Valores «<1» registados como 0,5 TWh. A Zâmbia e o Zimbabué foram deixados vazios, porque o alinhamento das colunas na fonte é incoerente (0 MW com 12 TWh e 3 176 MW com 0 TWh).
- Bombagem ÷ carga média. Potência de bombagem (GW) ÷ carga elétrica média, que é a procura anual (TWh) ÷ 8,76. É potência, não energia armazenável.
- Fator de capacidade convencional. Produção de 2025 ÷ ((potência total − bombagem) × 8 760 h). É uma aproximação: a fonte não separa a produção a partir de água bombeada.
- Quota hídrica de três anos. Soma da produção hídrica nos três anos até ao de referência (2024, ou o último disponível), a dividir pela soma da produção elétrica total nesses anos. Não é a média das três percentagens.
- Variabilidade face à tendência. Para cada país com pelo menos oito anos de produção positiva entre 2015 e 2024 e média superior a 0,1 TWh, ajustou-se por mínimos quadrados uma reta à produção anual; anos com produção nula foram excluídos como falhas de registo. A razão rt é a produção do ano a dividir pelo valor da reta. A variabilidade é o desvio-padrão amostral de rt; o ano mais seco é o mínimo de rt. 137 países cumprem os critérios.
- Choque de seca. Quota hídrica de três anos × (1 − ano mais seco ÷ tendência). Fração da produção elétrica que falta no pior ano da década, admitindo que a procura se mantém. Grandeza física derivada, não índice.
- Idade do parque hídrico. 2026 menos o ano de entrada em serviço, ponderado pela potência, das centrais hidroelétricas em operação no Global Integrated Power Tracker do Global Energy Monitor (setembro de 2026). Nas centrais binacionais, usou-se a parte atribuída a cada país.
- Armazenamento. Soma da capacidade das albufeiras (CAP_MCM) da Global Dam Watch v1.0, por país, a dividir pela população do Our World in Data. O uso principal de cada barragem é o declarado na base.
- Stress hídrico e captações. ODS 6.4.2 do FAO AQUASTAT, último ano disponível (2023 para a maioria). Classes da FAO: sem stress abaixo de 25 %; baixo, médio e elevado até 50, 75 e 100 %; crítico acima de 100 %. Quota agrícola = contribuição do setor agrícola para o stress ÷ stress total, o que equivale à fração agrícola das captações.
- Serviço. JMP 2025, ano de 2024: água e saneamento geridos com segurança (ODS 6.1.1 e 6.2.1) e pelo menos básicos, total nacional. Valores «>99» registados como 99,5 e apresentados como «> 99 %».
- Nexo. Fatores de Macknick et al. (2012), medianas norte-americanas, convertidos de gal/MWh para m³/MWh com 1 gal = 0,003785 m³. Eletricidade da dessalinizadora do Algarve: 16 hm³/ano × 3,3 kWh/m³ ≈ 53 GWh/ano, a comparar com o consumo de 2025 da REN (53 044 GWh). Água não faturada: ≈ 190 hm³ ÷ 16 hm³ ≈ 12.
- Correlações e contagens. Coeficiente de ordem de Spearman: −0,34 entre a quota hídrica e a variabilidade (137 países, p < 0,001); −0,12 entre o armazenamento por habitante e o stress (152 países, p = 0,16). A população em países com stress acima de 50 % soma as populações nacionais e não equivale à população que vive em bacias com esse stress.
- Posições. Contadas do valor mais alto (1.º) para o mais baixo, entre os países com dado. «Europa» designa os 41 países e territórios europeus do painel. Nenhuma posição é uma nota.
- Limites. O painel não mede a energia armazenável em bombagem, o stress por sub-bacia e por mês, a dependência externa de caudais, a água não faturada nem a água captada e consumida pelo parque elétrico de cada país, por falta de fonte mundial aberta ou por não terem sido obtidos os dados por país. As médias nacionais e anuais subestimam o stress das bacias e das estações críticas.
Referências anotadas
A. Do autor
- Amaral, G. (10/2026), Painel mundial água–energia, folha de cálculo com 214 países e territórios e 30 indicadores numéricos — anexa a este artigo.
- Amaral, G. (10/2026), Medir a água e a hidroeletricidade com a mesma régua, estudo de síntese sobre fontes, indicadores e regras de comparabilidade — anexo a este artigo.
- Amaral, G. (10/2026), A energia não cabe numa régua só, LinkedIn — potência, energia, ordens de grandeza.
- Amaral, G. (10/2026), Duas horas ao fim da tarde, LinkedIn — a escala das horas no sistema ibérico.
- Amaral, G. (10/2026), Dez decibéis não são mais dez, LinkedIn — a escala logarítmica.
B. Hidroeletricidade
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C. Recursos hídricos e serviço
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D. Secas
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- Zambian Digest (2024) — Kariba Norte a 98 MW de 1 080 MW.
- Anadolu (2024), Equador — cortes de 14 horas por dia.
- Catalan News (2024), Catalunha — emergência em 202 municípios.
- EDF (2022), Bilan été 2022 — albufeiras baixas e limites térmicos dos rios no mesmo verão.
E. Nexo água–energia
- Macknick, J., Newmark, R., Heath, G. e Hallett, K. C. (2012), Operational water consumption and withdrawal factors for electricity generating technologies, Environmental Research Letters 7 — fatores de captação e de consumo.
- Mekonnen, M. M. e Hoekstra, A. Y. (2012), The blue water footprint of electricity from hydropower, HESS 16 — método bruto, ≈ 68 m³/GJ.
- Scherer, L. e Pfister, S. (2015), Water footprint of hydropower, ETH Zürich para o IAI — método líquido e repartição pelos usos.
- US DOE (2017), Bandwidth Study on Energy Use in Seawater Desalination — 3,3 kWh/m³ (osmose inversa) e 15 kWh-eq/m³ (MSF).
- IEA (2016), A delicate balance between water demand and the low-carbon energy transition — ≈ 4 % da eletricidade mundial no setor da água.
- IEA (2023), Clean energy can help to ease the water crisis — ≈ 370 mil milhões de m³ captados pelo setor energético em 2021.
- Governo de Portugal (2024), dessalinizadora do Algarve — ≈ 16 hm³, 108 M€.
F. Bases de dados usadas no painel
- Our World in Data, energy-data — produção hídrica e total, procura, população (dados Ember e Energy Institute; CC BY 4.0).
- Global Energy Monitor, Global Integrated Power Tracker (setembro de 2026) — idade das centrais hidroelétricas (CC BY 4.0).
- Global Dam Watch — base GDW v1.0 de barragens e albufeiras.
- FAO, AQUASTAT — ODS 6.4.1 e 6.4.2 e contribuições setoriais.
- OMS/UNICEF, JMP — dados — ficheiro mundial de 2025.
G. Literatura climática
- van Vliet, M. T. H. et al. (2016), Power-generation system vulnerability and adaptation to changes in climate and water resources, Nature Climate Change 6 — capacidade utilizável das hídricas e térmicas em 2040–2069.
- Guerreiro, S. B., Kilsby, C. G. e Fowler, H. J. (2016), Rainfall in Iberian transnational basins, Climatic Change 135 — Douro, Tejo e Guadiana em RCP8.5.
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Gaspar do Amaral · 11 de outubro de 2026 · Texto publicado primeiro no LinkedIn; a versão integral fica neste site, que passa a ser a de referência · Imagens © Aprecisa.com