Energia e sistema elétrico
Tensão, não adjetivos: o que o relatório final do apagão ibérico exige que a engenharia diga em voz alta
Gaspar do Amaral ·
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A televisão discutiu semântica, mas a termodinâmica ditou as regras.
O relatório final da ENTSO-E sobre o apagão ibérico de 28 de abril de 2025 — cujos eventos determinantes se concentraram do lado espanhol — encerrou o debate dos eufemismos com a frieza dos factos.
Não foi uma questão de energia «intermitente» ou «variável»: foi uma falha de serviços de sistema — e a responsabilidade corta transversalmente o dogma, em qualquer dos sentidos.
No meu artigo disseco o documento e exponho o que o debate mediático continua a asfixiar:
1️⃣ A Ilibação e a Exigibilidade: o relatório iliba a «cor» do eletrão — o problema não foram as renováveis, foi o controlo de tensão, qualquer que fosse a tecnologia. O que falhou foi a exigibilidade: o desfasamento entre o suporte de tensão e de reativa que alguns utilizadores do sistema deviam prestar e o que entregaram em tempo real. Não se trata de absolver uns e condenar outros por natureza, mas de exigir a todos — fósseis, renováveis ou armazenamento — o serviço de sistema contratado.
2️⃣ A Grandeza Certa: o colapso foi de estabilidade de tensão. E aqui sou mais incisivo do que o debate corrente — a inércia não foi a causa-raiz; foi a tensão excessiva e o controlo de reativa. A rede não se mede só em inércia: mede-se em potência de curto-circuito, em capacidade de reativa e em firmeza determinística do controlo de tensão.
3️⃣ O Risco Ciber-Físico (o próximo problema, não este): que fique claro — o apagão de 28 de abril não teve causa ciber, e o relatório não a aborda. Mas o que ele não diz é o que me preocupa a seguir: o aço rotativo não se atualiza nem se desliga remotamente; os inversores — necessários e já obrigatórios — abrem uma superfície ciber-física nova. Numa monocultura de firmware, tornam-se um Ponto Único de Falha (SPOF) sistémico — risco crítico à luz da Diretiva NIS 2. É extrapolação minha, não conclusão do painel; mas é a omissão que a engenharia deve pôr na mesa antes do próximo evento.
4️⃣ A Simetria da Lei REI: quem introduz variabilidade tem de internalizar a sua estabilização — e o princípio é simétrico e mensurável. A reativa não prestada é um incumprimento contratual quantificável, devido por quem quer que seja, fóssil ou renovável. Onde a engenharia termina e começa o juízo de valor — externalidades, CO₂, exposição ao combustível —, digo-o com a fronteira marcada, para que a física não se confunda com a política.
A resposta é um sistema híbrido desenhado pela engenharia, não pelo slogan. Não precisamos de mais «eletricidade em pó».
«A física não vai a eleições. A termodinâmica não aceita adjetivos. E a cibersegurança não aceita monoculturas.»
👇 Artigo completo: https://lnkd.in/guSuhaGw
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Os comentários a este texto fazem-se no LinkedIn, onde foi publicado a 14 de junho de 2026. Concorde, discorde ou acrescente dados: todas as objeções fundamentadas recebem resposta.
Gaspar do Amaral · 14 de junho de 2026 · Texto publicado primeiro no LinkedIn; a versão integral fica neste site, que passa a ser a de referência · Imagens © Aprecisa.com