Guimarães e os 900 anos · Newsletter «A Escada de Mil Anos»
Estavam lá os nossos?
Quem estava em Guimarães a 24 de junho de 1128, o que uma família guardou desse dia e o que a pedra confirma
Gaspar do Amaral · · N.º 2
Neste site, este artigo foi

Era o dia mais comprido do ano. A 24 de junho de 1128, festa de São João Baptista, no campo de São Mamede, à vista do castelo de Guimarães, um príncipe de dezoito anos jogou tudo numa manhã. Do outro lado estavam a mãe, D. Teresa, e o conde galego Fernão Peres de Trava, com cavaleiros vindos de Coimbra e de Viseu. Do lado dele estavam os senhores do Norte. Ao fim do dia, havia vencedores, prisioneiros e um país que ainda não sabia que tinha nascido.
Novecentos anos depois, ainda fazemos a pergunta que todas as famílias antigas de Guimarães já fizeram à mesa de jantar: e os nossos, estavam lá?
Esta newsletter, A Escada de Mil Anos, nasce para responder a perguntas destas com o rigor de um engenheiro: medir, comparar, desconfiar e dizer com clareza o que está provado e o que não está. Começo pela minha própria família, porque é a que conheço melhor e porque é a única cuja história posso pôr em causa sem ofender ninguém.
Quem estava, de facto, em São Mamede
Não há uma lista dos combatentes. O que há são documentos assinados. Na época, quem estava ao lado do príncipe aparecia como «confirmante» nos diplomas, um pouco como as testemunhas numa escritura de hoje. Foi com essas listas que o historiador José Mattoso, na biografia D. Afonso Henriques, reconstruiu os dois campos.
A história começa seis anos antes. Em 1122, os grandes senhores do Norte deixaram a corte de D. Teresa, por não aceitarem o poder do conde de Trava. À cabeça iam três irmãos de uma família do vale do Douro, os Ribadouro: Ermígio Moniz, que governava Faria; Egas Moniz, que governava São Martinho, Lamego e Neiva, e que a lenda faria «o Aio»; e Mendo Moniz, que governava Penafiel de Sousa. Com eles iam Soeiro Mendes de Sousa, senhor de Aguiar de Sousa, e Paio Soares da Maia. Foram estes os homens que deram a vitória ao infante. Logo a seguir, Ermígio Moniz tornou-se o primeiro mordomo-mor, uma espécie de primeiro-ministro, e para Mattoso foi «o membro mais importante da corte» entre 1128 e 1135.
Em números. São Mamede foi há 898 anos. Se cada geração durar cerca de 30 anos, isso dá 30 gerações entre nós e os homens de 1128. Cada pessoa viva tem, em teoria, 230 antepassados nessa geração, mais de mil milhões, um número maior do que toda a população da Europa de então. A conta só fecha porque os mesmos antepassados aparecem muitas vezes na árvore. Por isso, quase todos os portugueses com raízes no Norte descendem, por algum caminho, de alguém que lá esteve. A pergunta séria não é «descendo de alguém de São Mamede?», mas sim «consigo provar por que caminho?».
A escada de uma família
Em 1931, um coronel de Guimarães, Duarte do Amaral, trasladou à mão um manuscrito de cerca de 1609 que contava a história dos Amarais. Em 1944, o livro foi datilografado e o filho mais velho, António, pintou-lhe os brasões. Esse livro de 140 páginas chegou-me às mãos, e fiz-lhe uma auditoria, como se faz a uma ponte antes de a abrir ao trânsito. Publiquei-a no n.º 1 desta newsletter, A Escada de Mil Anos.
O livro desenha uma escada de 25 degraus, desde Ramiro II, rei de Leão, até ao século XX. Nos primeiros degraus aparecem nomes que soam ao vale do Douro: «D. Hermigio Alboazes», «D. Egas Hermiges, o Bravo», «D. Paio Viegas». São os mesmos nomes de família — Ermígio, Egas — que os Ribadouro repetiam de pais para filhos. A tradição da família diz, portanto, que os Amarais saem do mesmo tronco que os vencedores de São Mamede.
Isto pode testar-se. Na Idade Média, o segundo nome dizia de quem se era filho, tal como hoje «Fernandes» quer dizer «filho de Fernando» e, em inglês, «Johnson» quer dizer «filho de John». Egas Hermiges é filho de Ermígio; Paio Viegas é filho de Egas; Martim Afonso é filho de Afonso. Fiz a verificação do 3.º ao 11.º degrau: os nove patronímicos encaixam todos no nome do pai. Nove em nove.
Não é uma prova, e é importante dizê-lo. Qualquer genealogista de 1609 conhecia esta regra e cumpria-a, tal como um bom falsificador acerta nas datas. O que o teste mostra é que a escada não tem erros grosseiros: nenhum pai trocado, nenhuma geração invertida. É coerente por dentro. Falta saber se é verdadeira por fora.
O veredicto: ao lado, não dentro
E por fora o resultado é claro. Os dois degraus que a cronologia põe mais perto de 1128, D. Egas Hermiges e D. Paio Viegas, não aparecem em nenhum dos documentos que Mattoso usa. Os nomes seguros de São Mamede são os dos irmãos Ribadouro e dos Sousa, e nenhum deles está na escada da família. Ermígio Moniz, o homem mais poderoso de 1128, morreu em 1135 sem filhos, e por isso não pode ser antepassado de ninguém.
A escada passa ao lado de São Mamede, pelo mesmo tronco, mas sem um único nome documentado no dia da batalha.
É como ter o apelido de um futebolista famoso: pode ser sinal de parentesco, mas não faz de ninguém filho dele. Se a tradição dos primeiros degraus estiver certa, os Amarais são primos de um tronco comum com os homens de 1128, e não seus descendentes diretos. Encontrar a prova é o trabalho do segundo artigo, Quem estava em 1128?.
Onde a pedra fala
Se a Idade Média está nevoenta, a partir do século XV a história começa a ficar gravada em pedra, e a pedra não mente sobre o que lá está escrito. Nesta investigação encontrei três confirmações que valem mais do que muitas páginas:
- No claustro da Colegiada de Guimarães, hoje Museu de Alberto Sampaio, há um túmulo com esta inscrição em letra gótica: «Aqui jaz Fernam de Freitas e sua neta Mesia do Amarall». O livro de família diz exatamente isso: a pequena Mécia, que morreu nova, foi enterrada junto do avô. A capela ao lado, a de São Brás, foi mandada construir em 1419 por Álvaro Gonçalves de Freitas, vedor da Fazenda de D. João I, e terá chegado à família por volta de 1609, muito provavelmente pelo casamento com uma senhora da família Laborão, que antes a possuía.
- Na Igreja de São Domingos, a capela de Nossa Senhora das Neves ainda tem uma cartela que diz: «Esta capela é de Fernando Peixoto do Amaral e Freitas, Cavaleiro da Ordem de Cristo, e de sua mulher D. Maria Rosa Correia da Silva e de seus herdeiros». Um boletim oficial de 1962 encontrou a escritura: foi comprada a 7 de março de 1748, por 100 000 réis. Por cima do arco está o escudo da família, partido entre Amarais e Freitas.
- Na carta de brasão de 1738, D. João V descreve essas armas palavra a palavra, como uma especificação técnica: seis crescentes azuis em campo de ouro, cinco estrelas de ouro em campo vermelho e um leão por timbre. Há aqui uma ironia deliciosa. Em 1609, o autor do manuscrito tinha criticado um parente por pôr uma alabarda nas mãos do leão: «o leão há de ser rompante, livre, sem ter nada nas mãos». Em 1738, a carta do rei dá ao mesmo leão «uma acha de armas na mão». O que um primo condenou, o rei transformou em lei, 129 anos depois.
Porque é que isto importa em 2028
Daqui a 607 dias, Guimarães vai celebrar os 900 anos de São Mamede. Vão aparecer discursos, árvores genealógicas bonitas e muitas famílias a dizer que «estavam lá». A ideia desta newsletter é outra: tratar o grão de 1128 como um método, e não como uma lembrança. O método é sempre o mesmo e qualquer pessoa o pode usar.
- Separar as camadas. Um livro de família tem muitas mãos: quem escreveu, quem copiou, quem anotou. Um erro de 1931 não pesa o mesmo que um erro de 1609.
- Medir o relógio. Uma geração dura, em média, cerca de 30 anos. Se uma escada põe 52 anos entre pai e filho, há degraus em falta.
- Procurar a pedra e o papel. Os registos paroquiais, as cartas de brasão e as inscrições valem mais do que qualquer tradição.
- Dizer o que não se sabe. Uma hipótese assumida como hipótese vale mais do que uma certeza inventada.
No próximo número começa a descida: 1944, os brasões pintados à mão. São doze desenhos de António Pinto de Carvalho Freitas do Amaral. Que dizem eles quando os pomos lado a lado com o texto do livro?
Se tem em casa um livro de família, um brasão numa parede ou uma pedra com letras gastas, escreva-me. Cada uma destas peças é um grão.
Para ler mais
- Gaspar do Amaral (2026). A Escada de Mil Anos. Auditoria, com métricas, de um livro de família de Guimarães (artigo, 24 de outubro de 2026).
- José Mattoso (2007). D. Afonso Henriques. Lisboa: Temas e Debates / Círculo de Leitores (reimpressão de 2014), pp. 35–37, 51–64 e 388.
- Boletim da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, n.º 108, «Igreja de S. Domingos de Guimarães» (junho de 1962), pp. 12–13 e 18–19.
- Museu de Alberto Sampaio — Claustro e Capela de São Brás; túmulo de Fernão de Freitas e da neta Mécia.
Tem um documento, uma pedra ou uma memória?
Esta newsletter sai uma vez por mês, no dia 24, só neste site. Se tem em casa um livro de família, um brasão numa parede, uma pedra com letras gastas ou uma correção a fazer, escreva ao autor: cada peça é um degrau.
Gaspar do Amaral · 26 de outubro de 2026 · Texto publicado só neste site · Imagens © Aprecisa.com