Energia e sistema elétrico · Artigo publicado no LinkedIn em 23 de abril de 2026
A fatura da despedida: o Abismo do Rigor e a morte da inércia síncrona administrativa
Um despacho sobre garantias de origem e uma provisoriedade crônica: a inércia administrativa também se paga
Gaspar do Amaral · 23 de abril de 2026
Adaptação do original em português de Portugal. Esta versão foi emitida em 27 de outubro de 2026.
Neste site, este artigo foi

Por: Gaspar do Amaral
No momento em que a regulação energética portuguesa assiste à passagem do diretor-geral da DGEG (Direção-Geral de Energia e Geologia, de Portugal) para a presidência da Infraestruturas de Portugal (IP), o Despacho n.º 34/2026 não é apenas um detalhe técnico sobre Garantias de Origem (GO), mas o epílogo de uma provisoriedade crônica. Ao perpetuar um ciclo de isenções iniciado em 12 de janeiro de 2022 e renovado sistematicamente pelos Despachos n.º 7/2024 e n.º 008/2025, essa medida ignora inclusive os alertas da Informação n.º 3/DSEE/2024 (nota informativa), que, já em janeiro de 2024, confirmava a ausência de enquadramento legal para tais dispensas (essa informação é pública no site da DGEG, veja em: https://www.dgeg.gov.pt/pt/repositorio/atos/). Sob o pretexto de uma eterna estabilização do sistema, assistimos ao colapso da inércia síncrona administrativa: o atestado de óbito da Verticalidade regulatória que precipita o setor no Abismo do Rigor.
1. A prova de conceito: onde estão os nossos milhões?
As Garantias de Origem não são meros “papéis”; são o ativo digital que certifica o valor ambiental da nossa energia. No mercado ibérico, gerido pelo OMIP, o valor de 1 MWh de energia renovável tem oscilado entre € 1,50 e € 2,30.
- O cálculo do abismo acumulado: ao prorrogar, pelo quinto ano consecutivo, a isenção do registro obrigatório na EEGO (Entidade Emissora de Garantias de Origem) para unidades de até 1 MW e de autoconsumo (UPAC), deixamos no limbo um volume acumulado estimado entre 10 e 15 TWh (2 a 3 TWh/ano).
- Impacto no consumidor: essa isenção constitui uma renúncia de receita própria do Sistema Elétrico Nacional (SEN) que, no ciclo 2022-2026, estimamos superar os 50 milhões de euros. Essa verba, por imperativo legal, deveria mitigar o déficit tarifário suportado pelas famílias e empresas, funcionando como o amortecedor financeiro da rede que esse despacho agora drena para alimentar a opacidade.
- O paradoxo: o consumidor financia o subsídio às renováveis pela conta de luz, mas o Estado abre mão de cobrar o certificado de valor que esse mesmo subsídio gera. É uma transferência líquida e silenciosa de riqueza da esfera pública para a esfera privada.
2. Referência cruzada: do “Skoda” à “Ferrari”
Recentemente, numa declaração que ecoou o estado da nossa administração, o diretor-geral que deixa o cargo comparou o Estado a um “Skoda” e o setor privado a uma “Ferrari”. O Despacho 34/2026 é a materialização dessa profecia:
- A “porta giratória”: o regulador assina uma desresponsabilização técnica e financeira de um setor que ele próprio deveria fiscalizar, justamente no momento em que passa à gestão da maior infraestrutura estratégica do país — a IP —, onde passará a operacionalizar benefícios e eficiências decorrentes da desregulação técnica que ele próprio, enquanto fiscalizador, assinou às vésperas da despedida. Isto é, ao validar a viabilidade financeira de uma infraestrutura por meio da omissão deliberada de externalidades negativas e custos de estabilidade sistêmica, o regulador instrumentaliza o cargo para instituir um quadro normativo “sob medida”, do qual passará a se beneficiar diretamente ao assumir a respectiva gestão executiva. Ao deixar a DGEG para gerir a Infraestruturas de Portugal, assume o comando do maior consumidor de energia e gestor das redes ferroviária e rodoviária, beneficiando-se de um ecossistema de custos e regras que ele próprio desenhou, ignorando o rigor técnico que a estabilidade sistêmica do país exigia.
- Inércia síncrona administrativa: na engenharia elétrica, a inércia é o que estabiliza a rede diante de transitórios; na administração pública, a Verticalidade é a nossa inércia ética. Esse despacho é o “lastro” que se descarta para garantir um pouso suave num setor público na forma, mas privado na lógica, deixando o Estado sem capacidade de resposta diante do colapso da frequência do interesse comum.
3. A falácia da “estabilização do sistema”
Justificar o adiamento com a “necessidade de estabilização da plataforma”, depois de 4 anos, é tecnicamente ofensivo para qualquer engenheiro de comunicações.
- A realidade técnica: num ecossistema de soberania digital, baseado na Diretiva (UE) 2018/2001 (RED II), a emissão de GO deve ser um processo algorítmico, determinístico e auditável, assentado na telemetria em tempo real de medidores inteligentes (smart meters). O que esse despacho protege não é uma “plataforma em estabilização”, mas a manutenção da discricionariedade administrativa sobre um ativo que deveria ser negociado de forma automatizada e transparente.
- O fato: o que falta não é software; é a vontade de implementar o rigor científico acima da retórica de conveniência. O dinheiro que se “perdoa” nessas isenções pagaria dez vezes o desenvolvimento de uma plataforma de soberania digital inviolável.
4. Conclusão: o Abismo do Rigor
Não existe transição energética sem soberania digital. Enquanto tratarmos a energia como um balcão de despachos de última hora — ignorando inclusive a admissão interna da própria Direção-Geral na Informação n.º 3/DSEE/2024, que confirmava a ausência de enquadramento legal para essas isenções após a Diretiva n.º 17/2023 da ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos, o regulador português de energia) —, continuaremos a pagar o combustível da Ferrari alheia com o sacrifício de quem dirige o Skoda.
Essa perpetuação da opacidade, que já retirou do Sistema Elétrico Nacional uma receita acumulada superior a 50 milhões de euros entre 2022 e 2026, configura uma desobediência técnica consciente ao rigor regulatório.
Como no artigo “O Abismo do Rigor: A Ilusão da Energia Barata”, o que não se mede não se gerencia. E o que se oculta sob “períodos transitórios” é, na verdade, a privatização dos benefícios e a socialização do risco sistêmico, paga invariavelmente pelo contribuinte por meio da inflação do LCOE sistêmico oculto que ninguém ousa contabilizar nas planilhas oficiais.
É hora de exigir Verticalidade. É hora de sair do abismo.
#Energia #DGEG #Engenharia #Rigor #GarantiasDeOrigem #SoberaniaDigital #LCOE #InerciaSincrona #Portugal2026
Nota metodológica
O que é esta página. Adaptação para o português do Brasil do artigo que o autor publicou no LinkedIn em 23 de abril de 2026; a versão original, em português de Portugal, está neste site. As estimativas do artigo (10 a 15 TWh acumulados e mais de 50 milhões de euros entre 2022 e 2026) são do autor, como no original.
Nomes de atos e organismos. Os despachos portugueses, a nota informativa da DGEG e os nomes dos organismos portugueses (DGEG, EEGO, ERSE, IP, SEN, UPAC) ficam como no original, com explicação entre parênteses quando necessário.
Conceitos do autor. Abismo do Rigor e Verticalidade são termos próprios do autor e ficam em itálico.
Mudanças de forma, não de conteúdo. A ilustração original é reproduzida com os textos em português de Portugal e uma legenda adaptada. As hashtags do LinkedIn ficam como no original. Não se reproduziu um ponto final duplicado da página portuguesa. Os links para as fontes são os do original.
A discussão está no LinkedIn (em português de Portugal)
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Gaspar do Amaral · Original em português de Portugal de 23 de abril de 2026, publicado neste site; adaptação emitida em 27 de outubro de 2026 · Figuras e tabelas © Aprecisa.com · Com recurso a IA